10/04/2017

LAVA JATO EXCLUSIVA

Exclusivo – A conta-laranja de João Santana

Marqueteiro de Dilma e Lula diz aos procuradores que disponibilizou uma conta pessoal na Suíça para integrantes da cúpula do PT receberem dinheiro não declarado desviado da Petrobras. O ex-ministro Guido Mantega atuou como intermediário. BC e PF investigam

Exclusivo – A conta-laranja de João Santana
“PATINHAS” ABRE O JOGO Em delação, João Santana falou das operações ilícitas nas campanhas petistas
Débora Bergamasco e Mario Simas Filho
07.04.17 - 18h00
12K
O Banco Central e a Polícia Federal conduzem sigilosamente uma investigação para saber a origem e o destino de US$ 7,5 milhões de uma conta na Suíça. Parte desse dinheiro foi desviada da Petrobras e teria sido destinada a integrantes da cúpula do PT.
A conta em questão foi aberta no banco suíço Heritage e é conhecida como Shellbill, nome de uma empresa offshore criada pelo publicitário e ex-marqueteiro de campanhas petistas, João Santana, que na semana passada teve homologado seu acordo de delação premiada pelo ministro do STF, Edson Fachin. Tanto a PF como o BC já sabiam da existência da conta, que foi confirmada pelo próprio marqueteiro, quando foi preso em fevereiro de 2016. O que não se sabia até agora é que boa parte dos recursos que passaram por essa conta teria como destino final outros personagens do PT.
À SOMBRA Quem informava Santana sobre depósitos e transferências era Guido MantegaÀ SOMBRA Quem informava Santana sobre depósitos e transferências era Guido Mantega
A revelação foi feita por João Santana durante negociação com a Procuradoria-Geral da República, mas não se sabe se essa informação entrou no texto final da delação premiada porque os procuradores ponderaram que, para incluí-la, seria necessário aprofundar as investigações.
“A princípio imaginamos que a conta na Suíça era usada para que João Santana recebesse pelos serviços prestados tanto no Brasil como no exterior. Mas, com as informações que temos agora, podemos inferir que a conta seria uma espécie de laranja para que os dirigentes do PT recebessem propinas no exterior”, afirmou na noite da quarta-feira 5 uma das pessoas que participaram das negociações.
“Para atestar a informação, já solicitamos ajuda da Suíça para rastrear a saída de recursos dessa conta”. O marqueteiro não declinou os nomes dos favorecidos. Apenas afirmou que se tratava de membros da cúpula do partido. Quem lhe informava sobre os depósitos e as transferências que deveriam ser feitas era o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega. Reticente em abrir o jogo num primeiro momento, João Santana só reconheceu que a Shellbill era uma conta-laranja depois que a Procuradoria da República começou a contabilizar o valor que, pelo acordo, ele deveria devolver aos cofres públicos.
Os procuradores usavam como base de cálculo os US$ 7,5 milhões movimentados no banco suíço. Foi quando Santana afirmou que o dinheiro não era apenas dele. O marqueteiro foi taxativo: a pedido de cabeças coroadas do PT, ele disponibilizou sua conta para que petistas pudessem receber dinheiro sujo não declarado no exterior. O intermediário era Mantega. A existência da conta-laranja mostra que os préstimos de Santana ao PT transcenderam os serviços de marketing às campanhas dos ex-presidentes Lula e Dilma entre 2006 e 2014.
65DILMA SABIA João Santana repetiu o que Marcelo Odebrecht disse à Lava Jato: a ex-presidente sabia de tudo
Na delação premiada, homologada na última semana, o casal João Santana e Monica Moura deixa claro que houve movimentação irregular de dinheiro em todas as campanhas eleitorais nas quais participaram no Brasil e em outros países da América Latina, no período de 2006 até serem presos, incluindo as de Lula e Dilma. As operações ilícitas envolveram ainda as campanhas de Hugo Chavez, falecido, e Nicolas Maduro, na Venezuela, de Maurício Funes, em El Salvador, de Danilo Medina, na República Dominicana e de José Eduardo dos Santos, em Angola.
Aos procuradores, Santana também atestou relato do empresário Marcelo Odebrecht à força-tarefa da Lava Jato e ao TSE de que, sim, Dilma tinha conhecimento das operações ilícitas de caixa dois – o que desmonta de maneira cabal e irrefutável todas as versões apresentadas até agora pela ex-presidente segundo as quais ela estaria alheia às tratativas de propina e caixa 2.
Entre todos os políticos implicados pelo casal João Santana e Monica Moura, a ex-presidente petista foi, indubitavelmente, a mais atingida. Num dos capítulos do depoimento, Santana e sua mulher fazem outra imputação grave a Dilma. Guarda relação com mais uma tentativa da petista de obstruir a Justiça. Eles acusam Dilma de vazar de dentro do Planalto informações sigilosas sobre o andamento da Lava Jato. Segundo Santana, o Planalto, sob o comando de Dilma e com o consentimento e conhecimento dela, o avisou de que ele estava para ser preso, às vésperas de sua detenção pela PF em fevereiro de 2016.
O marqueteiro disse não saber se o alerta foi redigido por Dilma ou por um assessor dela. Ele teria confirmado, porém, que a fonte do alerta seria o Palácio do Planalto. O aviso foi dado por meio de uma mensagem, localizada dentro de um e-mail cifrado. O endereço do e-mail teria sido criado na presença de Dilma Rousseff e dentro da biblioteca do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República. A senha era compartilhada entre Dilma, Mônica Moura e o marqueteiro. Ou seja, somente os três tinham acesso ao endereço eletrônico. Cópias de uma dessas mensagens cifradas alusivas à investigação da Lava Jato foram entregues aos procuradores.
CONTAMINADAS
Estas campanhas foram abastecidas com recursos ilegais, segundo delação do marqueteiro João Santana
Hugo Chávez  (Venezuela)
 1 de 5 Hugo Chávez (Venezuela)
Nícolas Maduro (Venezuela)
 2 de 5 Nícolas Maduro (Venezuela)
Maurício Funes (El Salvador)
 3 de 5 Maurício Funes (El Salvador)
Danilo Medina (República Dominicana)
 4 de 5 Danilo Medina (República Dominicana)
José Eduardo dos Santos (Angola)
 5 de 5 José Eduardo dos Santos (Angola)

“É problema do lula”

Nos bastidores do PT, ninguém revela surpresa com o conteúdo do depoimento do marqueteiro. No dia em que Santana e sua mulher foram presos, ainda em 2016, Lula já sabia que a casa tinha caído. Sobretudo para Dilma. “Ela (Dilma) sabia que ia dar m…Que isso tudo chegaria na campanha”, esbravejou o petista em conversa telefônica com o então ministro da Casa Civil, Jaques Wagner.
Na mesma conversa, Lula rememorou uma conversa mantida no Palácio do Planalto entre o senador Delcídio do Amaral (PT) e a presidente Dilma na esteira da prisão de Marcelo Odebrecht. Durante uma reunião, o senador petista advertiu a chefe do Executivo: “Presidente, a sra. sabe que foi uma dessas empreiteiras implicadas na Lava Jato que bancaram sua campanha e pagaram ao publicitário João Santana”. Ao que Dilma respondeu: “Isso é problema do Lula. Ele que resolva”. Delcídio então rebateu: “Não, a campanha era sua. É sua a responsabilidade”.
Compete agora ao procurador-geral Rodrigo Janot, que está em viagem à Coreia do Sul e ao Japão, definir os próximos passos das investigações. Janot se debruçará sobre o assunto a partir desta semana, quando estará de volta ao Brasil. Segundo apurou ISTOÉ, na PGR não pairam dúvidas: é líquido e certo que a delação do marqueteiro ensejará abertura de inquéritos para investigar a tríade petista – Lula, Dilma e Guido Mantega. Pode sobrar até para o tesoureiro da campanha de Dilma à reeleição, Edinho Silva, hoje prefeito de Araraquara. O lulopetismo agoniza.
Duda conta tudo
70
Além do marqueteiro João Santana, o publicitário Duda Mendonça, que conseguiu eleger Luiz Inácio Lula da Silva presidente do Brasil em 2002, também assinou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal há pouco mais de uma semana. Os depoimentos do inventor do “Lulinha paz e amor” estavam na Justiça do Distrito Federal, mas como ele narrou ilícitos envolvendo pessoas com foro privilegiado, o processo foi enviado ao Supremo Tribunal Federal. A delação foi motivada pela investigação da Polícia Federal sobre as gráficas fantasmas da campanha de Dilma Rousseff.
O conteúdo está sob sigilo, mas a colaboração será anexada à investigação que corre no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para ajudar nas apurações de possível abuso de poder econômico na campanha que elegeu a presidente Dilma e seu então vice-presidente, Michel Temer, na disputa de 2014. O ministro do STF Edson Fachin ainda decidirá se homologa ou não a delação de Mendonça. Em 2005, Mendonça confessou à CPI dos Correios ter recebido R$ 10,5 milhões pela campanha à eleição de Lula via caixa 2.
Documento da Lava Jato mostra detalhes das contas offshore usadas por João Santana

71


CRISTÉRIO PARA DOAÇÃO DE SANGUE

Por que tanta gente não pode doar sangue? Conheça critérios e suas razões

3

Maria Júlia Marques

Quem já doou sangue sabe que o processo é rigoroso. É preciso responder diversas perguntas sobre seus hábitos e até o meio de transporte que usou para chegar ao banco de sangue pode desclassificá-lo como doador.
Com tanto detalhamento na triagem, tem quem ache que algumas questões são frescura, mas não é bem assim. O processo é exigente para garantir a qualidade do sangue e cada resposta importa para segurança do receptor e do doador.
É um excesso de zelo para garantir a qualidade. Não temos que diminuir critérios para ter mais doadores, e sim, conscientizar a população sobre os riscos de um sangue inapropriado"
Tatiana Covas, hematologista do complexo hospitalar Edmundo Vasconcelos, que administra o banco de sangue de São Paulo
Quando a pessoa entende o processo, compreende que realmente um pequeno detalhe pode agravar o quadro de quem já está fragilizado e precisando de transfusão. Inclusive, o Ministério da Saúde tem uma portaria que afirma que o doador deve ser informado sobre os motivos da sua inaptidão para voltar preparado na próxima tentativa. 

Por que sono, idade e exercício são critérios?


DiVasca/ Arte UOL

Tem limite mínimo e máximo de idade
Os doadores devem ter de 16 a 69 anos. Menores de idade precisam de autorização e idosos devem ter feito a primeira doação até os 60 anos. "Pensando no desenvolvimento fisiológico, aos 16 anos não há mais perigo para doar. Já com 70, o corpo está passando por transformações e doar pode causar mal-estar", diz Cárlei Godinho, hematologista do Hemocentro da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
DiVasca/ Arte UOL
DiVasca/ Arte UOL

Fez piercing ou tatuagem?
"Se o piercing for na vagina ou na boca, regiões com altas chances de infecção, é proibido doar até um ano depois de tirar a joia", diz Godinho. Se for em outro lugar, é preciso ficar um ano sem doar, o mesmo tempo para tatuagem. Furar a pele com agulha pode transmitir hepatite C e B, e HIV. Tais doenças são testadas na doação, porém, leva tempo desde a contaminação até a doença ficar detectável. Pare evitar chance de transmissão de uma doença, espere.
DiVasca/ Arte UOL
DiVasca/ Arte UOL

Você precisa pesar mais de 50 kg
Não é sobre ser magra ou não. O Ministério permite a retirada de 8 mililitros de sangue por quilo de mulheres e 9ml/kg de homens. As bolsas de sangue são padronizadas para receber ao menos 400ml. Fazendo as contas, para encher a bolsa é necessário ter 50kg. "As bolsas têm anticoagulante que mantém o sangue em bom estado. Se colocamos menos sangue fica desproporcional para medida de anticoagulante e estraga a doação", explica Godinho.
DiVasca/ Arte UOL
DiVasca/ Arte UOL

Não vá de bike
Justificativa? Sua segurança. Depois da doação, é recomendado ficar ao menos 15 minutos em repouso, mas o corpo demora cerca de quatro horas para ficar 100%. "Ter menos sangue e fazer esforço físico exige mais do que o organismo pode dar, a chance de desmaio aumenta", diz Godinho. Se você desmaiar pedalando o acidente pode ser grave. Doadores com profissões de risco, como pilotos, devem ficar ao menos 12h sem trabalhar após doação.
DiVasca/ Arte UOL

DiVasca/ Arte UOL

Sua vida sexual importa 

DiVasca/ Arte UOL
DiVasca/ Arte UOL

Sou doador, sem drogas e sem álcool
A doação de sangue é vetada até que a droga saia do organismo. Se um paciente na UTI recebe sangue com cocaína, por exemplo, pode morrer. Segundo portaria do MS, o uso de maconha impede a doação por 12 horas. Cheirar cocaína, usar anabolizantes ou crack excluem o doador por um ano. Já se há uso de drogas injetáveis, o doador é descartado. Quanto ao álcool, não pode ser ingerido 12 horas antes da doação.
DiVasca/ Arte UOL
DiVasca/ Arte UOL

Nada de insônia ou comer mal
"Você se sente bem com poucas horas de sono? Somar o cansaço com perda de sangue acaba em desmaio", diz Neto. O sono protege o doador, e comer bem protege o receptor. "Se a refeição é pesada, a gordura é absorvida e o sangue fica gorduroso, com um aspecto ruim", explica Neto. O jejum também está vetado. Perdemos 500 calorias ao doar sangue, para evitar queda de pressão e náuseas, o ideal é um lanche leve.
DiVasca/ Arte UOL

Sem machucados ou gripe
A pele é cheia de bactérias. Um arranhão pode fazer com que as bactérias entrem no organismo e circulem no sangue, podendo ser transmitidas pela doação. A bactéria pode não ser nada para um organismo saudável, mas é agressiva para alguém fragilizado. É como estar com gripe ou nariz escorrendo, você também não pode doar. Um resfriado leve para você pode fazer muito mal a um doente em estado grave.
DiVasca/ Arte UOL
DiVasca/ Arte UOL

Confira seu passaporte
Na doação, os exames feitos obrigatoriamente no sangue são de sífilis, HIV, hepatite B e C, chagas e HTLV. Ao informar suas viagens você permite que o médico rastreie ameaças de outras doenças que podem ser transmitidas pelo sangue. "Não conseguimos testar todas as doenças do mundo, então excluímos quem foi para áreas epidêmicas por 30 dias, diminuindo riscos de transmissão. É o que acontece com a zika e com febre amarela", afirma Covas.
 

TENSÃO PRE-GUERRA NO MUNDO

A insustentável Síria

Depois da tragédia com armas químicas, Trump e Putin inauguram uma nova e belicosa era no cenário político internacional. Agora o mundo teme o pior

A insustentável Síria
TRAGÉDIACrianças vítimas de arma química: imagens chocantes de uma guerra que não tem fim

Na manhã da sexta-feira 7, poucas horas depois do ataque americano contra uma base militar síria, o primeiro-ministro da Rússia, Dmitri Medvedev, publicou um post em seu Facebook que denuncia os tempos sombrios que o mundo está prestes a viver. “Os Estados Unidos chegaram a um passo de um confronto com a Rússia”, escreveu Medvedev. Vladimir Putin, presidente do país e líder de fato da nação, afirmou que “os ataques causam um dano considerável nas relações entre os dois países, que já se encontram em um estado lamentável.” Por mais que pareça improvável e de certa forma surreal, em pleno século 21, falar em um conflito armado entre duas das maiores potências do planeta, os eventos trágicos dos últimos dias e as reações insidiosas dos envolvidos na questão levam a supor que a paz está, sim, ameaçada. Os agravantes trazem ainda mais indícios de que o planeta está exposto a uma nova era de violência. Trump e Putin são tão imprevisíveis quanto irascíveis, tão beligerantes quanto irresponsáveis. Como ensina a história, os países que eles comandam têm o infeliz hábito de subjugar alguém que consideram diferente e se tornaram temidos exatamente por essa vocação.
Míssil norte-americano ilumina bandeira dos EUA. Era o início do ataque contra o ditador sírio Bashar al-Assad.
Míssil norte-americano ilumina bandeira dos EUA. Era o início do ataque contra o ditador sírio Bashar al-Assad.
A foto que aparece na primeira página desta reportagem escancara o que a insanidade é capaz de perpetrar. Crianças mortas por asfixia e com os corpos retesados, como se tivessem partido no instante exato em que dispararam um grito de horror, jamais poderão ser esquecidas – e nunca mais toleradas. Se o ditador sírio Bashar al-Assad se permite cometer atrocidades como disparar gás venenoso contra jovens inocentes, o que resta ao mundo a não ser reagir para que o mal não se perpetue? Foi o que fez Donald Trump ao atacar as bases sírias na quinta-feira 6, e é difícil não se sensibilizar com suas palavras. “Mesmo lindos bebês foram assassinados com este ataque bárbaro. Nenhum filho do Senhor jamais deveria sofrer esse horror.” Mas será o louco, preconceituoso e radical Trump o homem que colocará fim à barbárie? Não é preciso ser um especialista em questões geopolíticas para responder a essa pergunta: “Não, não e não.”
Abu Ivanka al-Amriki, ou “Pai de Ivanka, o Americano”. Este é o apelido que o presidente Donald Trump ganhou entre os árabes nas redes sociais depois que o governo dos Estados Unidos lançou os 59 mísseis sobre a Síria, em represália ao ataque com armas químicas dois dias antes. Resume bem o novo capítulo da crise que desaba sobre o Oriente Médio: Trump entrou na guerra. Está contra o ditador sírio Bashar al-Assad. Mais do que isso. Ao lançar os mísseis, atingiu o coração da Rússia, até então sua aliada, que ajuda Assad a oprimir a oposição que quer derrubá-lo a qualquer custo. Com os desdobramentos da semana passada, a Síria se torna agora palco da batalha direta entre Rússia e EUA, as duas maiores potências bélicas mundiais.
Militares se preparam para a ofensiva
Militares se preparam para a ofensiva
A situação é mais complexa do que aparenta ser. A Síria vive uma crise política e humanitária há seis anos, com disputas dilacerantes que envolvem protagonistas dispostos a morrer por uma causa, além de estar no centro de uma série de ataques, bombardeios e atentados, e de abrigar um tipo de fundamentalismo que não se incomoda em destruir o outro com requintes de crueldade. Resultado: nos últimos anos, um mundo anestesiado acostumou-se com as imagens mórbidas de casas e bairros inteiros destruídos – e milhares de vidas perdidas. Estima-se em 400 mil pessoas assassinadas desde que a guerra civil começou e mais de 5 milhões de refugiadas pedindo asilo ao redor do mundo. A Síria é também o berço do Estado Islâmico, o maior e mais ativo grupo terrorista da atualidade. É na Síria que são disparadas as armas químicas, consideradas crime de guerra, como no reincidente ataque na terça-feira 4 – em 2013, outro atentado ordenado pelo governo matou 350 pessoas e deixou mais de 1.000 feridas. A Síria está no epicentro do maior confronto desde a Segunda Guerra Mundial. É, acima de tudo, um país dizimado e humilhado por bárbaras lideranças locais e atores globais com sede de guerra.
TERCEIRA GUERRA

Se o mundo teme as consequências de uma Terceira Guerra Mundial, os sírios têm a certeza de que o drama só vai piorar. Na opinião do professor de Relações Internacionais e pesquisador do Instituto Alemão de Estudos Globais, Kai Michael Kenkel, o ditador Assad vai tomar medidas mais drásticas a partir de agora, e a Rússia irá protegê-lo. “Isso vai acontecer mesmo havendo violações de direitos humanos”, afirma. A intenção do líder russo, diz o especialista, é não acabar com o conflito. Para Kenkel, a  Síria é usada como um jogo de xadrez entre os presidentes e, neste caso, o russo está ganhando. “Putin é racional e sabe o que está fazendo. Tem um entendimento muito maior de política internacional do que Trump.” A questão é que as duas nações expressam política e culturalmente o que em termos filosóficos se chama de “ethos guerreiro”, a necessidade de vencer e destruir o adversário. Ressalte-se que os dois países estiveram envolvidos nos maiores conflitos armados da história. Detêm os maiores orçamentos militares e discutem o tema da guerra e dos ataques de maneira recorrente.
Do ponto de vista estratégico, um ataque imediato da Rússia contra os Estados Unidos não seria viável. Para os especialistas, o que poderia ocorrer seria um bombardeio russo nos países que pertenceram à União Soviética e hoje integram a União Europeia. “Seria uma medida intermediária”, diz Héctor Luis Saint-Pierre, diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e líder do Grupo de Estudo de Defesa e Segurança Internacional. Para ele, o objetivo maior do ataque foi reafirmar o poderio bélico diante da China, que vem fortalecendo sua atuação como potência militar. “Trump quis chamar a atenção da opinião pública internacional, mostrando que pode ir até as últimas consequências. Isso daria mais credibilidade aos Estados Unidos nas relações bilaterais com o gigante asiático”.
“Até mesmo lindos bebês foram cruelmente assassinados neste ataque bárbaro. Nenhum filho de Deus deveria jamais sofrer horror tão terrível” Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
“Até mesmo lindos bebês foram cruelmente assassinados neste ataque bárbaro. Nenhum filho de Deus deveria jamais sofrer horror tão terrível” Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
Também está em jogo o controle geopolítico dessa parte do Oriente Médio, que é estratégica por conter zonas de passagem de gasodutos e oleodutos e ficar próxima a regiões petrolíferas, segundo a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Cristina Soreanu Pecequilo. “Quanto mais se prolonga um processo de instabilidade, pior é para a população”, diz ela. “Nesse vácuo de poder que propõe os Estados Unidos ao tentarem derrubar Assad, quem se fortalece é o Estado Islâmico”. Para o mundo, os perigos que o conflito trás é o prolongamento da violência, a ausência de negociação política e a possibilidade de que a Rússia também passe a agir unilateralmente. “A Síria pode se tornar um palco para a guerra entre esses países, uma espécie de mini Guerra Fria, só que cada vez mais quente”, completa a professora.
“Esta ação de Washington causa um dano considerável nas relações russo-americanas, que já se encontram em um estado lamentável” Vladimir Putin, presidente da Rússia
“Esta ação de Washington causa um dano considerável nas relações russo-americanas, que já se encontram em um estado lamentável” Vladimir Putin, presidente da Rússia
A ofensiva bélica escancarou a impotência da Organização das Nações Unidas (ONU) como organismo responsável pela diplomacia mundial. “Foi um gesto semelhante ao de George W. Bush quando declarou guerra sem o consentimento da entidade, usando como justificativa a questão da segurança nacional”, diz o professor Saint-Pierre, da Unesp. Aqui o problema ganha novas dimensões. Se cada país decidir adotar a medida que julgar adequada, como fizeram os Estados Unidos no ataque à Síria, muitas ameaçam estão por vir. “A confiança mínima entre as potências que vinha se construindo acabou de ruir”, diz Saint-Pierre. Agora, a ONU tenta mitigar os danos. Antonio Guterres, secretário-geral do órgão, pediu moderação para evitar que o sofrimento do povo sírio aumente e disse que não existe outro caminho para por fim ao conflito a não ser o político. Na contramão, diversos países expressaram apoio à ofensiva americana. Entre eles, Alemanha, França, Reino Unido e Turquia. Os dois primeiros divulgaram um comunicado conjunto afirmando que Assad tem plena responsabilidade pela represália. Theresa May, primeira-ministra britânica, declarou que a ação foi uma resposta apropriada à agressão selvagem da arma química. A Turquia, inimiga de Assad, considerou uma “resposta positiva” e defendeu a saída imediata do ditador sírio. A União Europeia também se manifestou institucionalmente, ressaltando que trabalhará ao lado dos Estados Unidos.
Seria ingênuo acreditar que Trump atacou a Síria apenas para evitar novas atrocidades. Ele tem interesses particulares no assunto. As últimas semanas foram especialmente difíceis para o presidente americano, que enfrentou um Congresso reativo aos seus projetos e que até insinuou a possibilidade de um processo de impeachment. Na política, em se tratando de uma pessoa como Trump, é preciso analisar todas as dimensões do fato em questão. Ao atacar um país disposto a lançar armas químicas, o que é indefensável sob todos os aspectos, Trump se fortalece no ambiente doméstico.
DESTRUIÇÃO Mohammed Mohiedin Anis em seu quarto após um bombardeio na cidade síria de Aleppo
DESTRUIÇÃO Mohammed Mohiedin Anis em seu quarto após um bombardeio na cidade síria de Aleppo
Popularidade em alta

Durante a campanha presidencial, ele foi criticado pela aproximação com a Rússia. Chegou a ser chamado de “fantoche de Putin” pela rival democrata Hillary Clinton. Depois dos ataques, especialistas acreditam que sua popularidade tende a subir. “É óbvio que há uma questão de ganho de imagem”, diz Carlos Gustavo Poggio Teixeira, coordenador do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade de São Paulo. “A preocupação humanitária com as crianças não apareceu na retórica dele antes. É uma cortina de fumaça para abafar outras questões.” Trump também usou o ataque para marcar uma posição oposta ao do antecessor Barack Obama. O ex-presidente disse que armas químicas romperiam uma linha vermelha, mas ele nada fez quando, em 2013, Assad lançou ataques idênticos aos da semana passada.
Ainda que nunca tenha agido diretamente dentro do conflito, Obama contribuiu significativamente para a crise na Síria, armando os fundamentalistas islâmicos violentos, os jihadistas, em aliança com a Arábia Saudita e outras nações petrolíferas árabes contra a ditadura de Assad. “A guerra civil tem sido patrocinada pelos Estados Unidos e forneceu um contexto essencial e fértil para a ascensão, inclusive, do Estado Islâmico. Centenas de milhares de sírios morreram devido à determinação de Washington de enfraquecer e, finalmente, derrubar o regime de Assad”, afirma o escritor americano Paul Street, autor de sete livros sobre a política americana. “Os jihadistas estão sendo derrotados agora principalmente graças à intervenção da Rússia e do Irã. A Síria é uma grande marca negra no registro de Obama.”
HORROR Integrantes do Estado Islâmico, grupo envolvido em conflitos no Oriente Médio e responsável por ataques terroristas em todo o território
HORROR Integrantes do Estado Islâmico, grupo envolvido em conflitos no Oriente Médio e responsável por ataques terroristas em todo o território
Ataques covardes

Usado como argumento por Trump para atacar Assad, os atentados com substâncias tóxicas são condenados internacionalmente por causa de seu caráter destrutivo e covarde, diferentemente de um confronto convencional, em que tropas, soldados e ofensivas estão delimitados. “Os compostos usados não tem cheiro nem cor, somem no ar, é um ataque que não se pode ver”, afirma Camilla Colasso, bioquímica especialista em armas químicas e autora do livro “Armas Químicas: o Mau Uso da Toxicologia”. “Ao se dar conta do que aconteceu a pessoa já está passando mal, sem chance de sobreviver.”
Para o especialista em questões de segurança no Oriente Médio, Rodger Shanahan, do Instituto Lowy de Política Internacional, a grande questão é por que esse tipo de ataque continua a acontecer. A Síria assinou acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) em 2013, logo após o primeiro grande ataque com arma química, se comprometendo a destruir todo o estoque de sarin. Foi o 189º a fazer parte da convenção sobre o tema, da qual apenas Coreia do Norte, Sudão do Sul e Egito não são signatários. “Seria preciso descobrir quem realmente autorizou o ataque. Uma arma química teria que ter sido deliberadamente movida para uma base aérea e carregada para uma aeronave. Isso foi ordenado pelo governo? Foi uma mensagem aos rebeldes ou a intenção foi constranger Assad? Há muitas possibilidades e poucas respostas”, diz Shanahan, que acredita que, para evitar futuros ataques, seria preciso provar quem foram os responsáveis e puni-los. Foi o que fizeram os Estados Unidos mesmo sem aval da votação do Conselho de Segurança. Nas últimas horas, as tensões ganharam intensidade. Os russos disseram que o plano americano de lançar mísseis foi elaborado antes dos ataques químicos. Logo depois, a embaixadora americana Nikki Haley afirmou que seu país está “preparado para ir mais longe.” O mundo espera que não seja longe demais.
POR QUE A GUERRA SÍRIA TEM IMPACTO MUNDIAL
82
> O país está no coração de uma área de conflitos historicamente influenciada pelas potências mundiais
> O ataque americano coloca duas mais importantes – Rússia e Estados Unidos – em confronto direto.
O governo de Vladimir Putin é aliado do ditador Bashar Al-Assad
> Também torna incerta a reação do Irã, outro país aliado de Al-Assad, inimigo de Israel e com forte presença no Golfo Pérsico
> Deixa em discussão o combate ao grupo extremista Estado Islâmico, que hoje controla boa parte do território sírio, na região mais próxima da Turquia. Uma coalisão internacional integrada também pela Síria, Estados Unidos e Rússia luta contra
os extremistas
> Deve agravar a crise de refugiados, a pior desde a Segunda Guerra Mundial. Grande parte das pessoas que procuram abrigo na Europa são sírios fugindo da guerra, que já dura 6 anos e é uma das mais cruéis dos tempos modernos

89
Colaboraram Fabíola Perez, Elaine Ortiz e Thais Skodowski

EDUCAÇAO EM SÃO ROBERTO MA

DESTAQUE  /  POLÍTICA Acabou o encanto pelos professores? Nas eleições de 2016, os professores foram peças fundamentais na campanha q...